arquiteturas do corpo-linha • 
cartografar e repertoriar formas somáticas através do desenho



Os corpos são uma arquitetura viva e em contínuo processo de atualização de suas formas, em interação e devir com os ambientes de que são parte. Cada aparição de nossa presença é uma resposta anatômica ao acontecimento, revelando também nossa história formativa. Esta narrativa de como nos tornamos quem somos – “how a body becomes somebody? ”, como dispõe Stanley Keleman – inscreve-se em nossa organização somática e se evidencia em nossas superfícies. 

Estes pés, estas mãos, esta carne, estes ossos… este conjunto em suas inumeráveis configurações tonais, pulsáteis e excitatórias guardam um compêndio comportamental reunido sob o invólucro epidérmico: é isto que desejamos inventariar, dar a ver, documentar poeticamente. Desenhar nossas múltiplas e possíveis formas de existir, funcionar e mundificar.

Neste ciclo, iremos praticar o desenho como dispositivo cartográfico-poético dessas florações somáticas que experimentamos ao longo da vida. Inspirado na prática do somagrama, concebido por Keleman, a proposta pretende instaurar um campo de estudo de si por meio do desenho e, inversamente, uma aproximação ao desenho por meio da experiência corporal que se desdobra em gesto: dos corpos da linha às linhas do corpo, exploramos o trânsito entre as superfícies do corpo e do papel, repertoriando essa assembleia de eus que se inscrevem visualmente.

Ao longo de nossa trajetória, respondemos a inúmeros desafios, experimentamos modos de ir ao encontro dos outros e de assimilar o que chega sensorialmente de fora, formando conexões e vínculos, padrões de ação e modos de funcionamento. A formação da subjetividade acompanha a produção do corpo em contínuo processo de crescimento e amadurecimento, de maneira que nossa arquitetura somática é a expressão encarnada de nossos comportamentos em sua processualidade: do nascer ao morrer, estamos constantemente atualizando nossas formas e respondendo adaptativamente ao presente. Este rico acervo de experiências e habilidades autopoiéticas está corporificado em nossos músculos e ossos, constituindo um memorial vivo e metaestável de formas que florescem, amadurecem e se desmancham no decorrer das etapas da vida. Que emoções foram preponderantes em nossa formação? Que estratégias corporais foram privilegiadas para responder aos desafios? Como essa bagagem de nosso vivo se dá a ver nos designs somáticos que viemos configurando até este ponto da caminhada? É tudo isso que desejamos fazer ver por meio do gesto do desenho, dando lugar e uma voz tátil a essa multiplicidade de formas que nos trouxeram até aqui.

do corpo da linha | Nossa obra de referência para uma outra aproximação à prática do desenho é “O corpo da linha”, da artista e educadora Edith Derdyk, que nos convida a uma experimentação filosófica, política e poética das linhas, a partir de desorganizar o olhar formado dentro da tradição do pensamento estético neoclássico. A exploração da linha em suas possibilidades materiais nos falam diretamente aos sentidos, antes da emergência de qualquer figura/ significado: tratamos de texturas, de vetores, velocidades, tonalidades, espessuras, ritmos, temperaturas etc. Deixamos a linha idealizada para encontrar a linha encarnada, viva, situada, presentificada e aberta em sua processualidade. Sensibilizados pelo trabalho aproximativo e encarnado com as linhas, experimentaremos verter para o papel capturas desenhadas desses corpos que acessamos. As formas que nos interessam como campo de investigação já não se subordinam a idealizações e projetos estéticos, mas antes são aquelas que permitem registrar e dar a ver uma verdade somática. A mão, nesse sentido, obedece ao desejo que se atualiza no encontro com seus instrumentos e as superfícies onde se inscreve o gesto. 

às linhas do corpo | A exploração do gesto que inscreve/ traça/ vinca/ rasga/ desliza a linha sobre uma superfície implica o corpo em um diálogo consigo mesmo: como eu uso a mim mesma para desenhar? de que modo o manejo da linha me organiza – me alinha? que emoções/ pensamentos/ imagens se apresentam enquanto estou experienciando o desenhar? A investigação com as linhas irão prefigurar acessos e aproximações à gramática do soma, à luz da abordagem formativa de Stanley Keleman e pelas lentes ecosófica e decolonial da filósofa Regina Favre. Por meio de práticas e consignas baseadas no exercício do “Como” em Cinco Passos de Keleman, mergulharemos em nosso repertório de formas somáticas e cartografamos mapas do vivido corporificados em padrões de ação e funcionamento. Ao estudar “como fazemos o que fazemos”, compreendemos que o corpo é um learning system, um sistema de aprendizagem em contínua produção de si e dos mundos de que são parte.

Nosso programa não visa a uma formação técnica em artes visuais, mas a propiciar tecnologias para uma produção que emerge como experiência corporal e que tem o poder de nos afetar somaticamente. Da captação de si (propriocepção) à gestualidade e novamente da forma desenhada à corporificação da experiência expressiva, produziremos uma série de desenhos que cartografam corpos em ato, compondo um arquivo pessoal de imagens.

Leituras sugeridas:
Edith Derdyk. O corpo da linha – notações sobre desenho.
Stanley Keleman. Anatomia Emocional.
_______________Corporificando a experiência.
_______________Padrões de Distresse.
Regina Favre: www.laboratoriodoprocessoformativo.com